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O programa de Lula para a eleição presidencial no Brasil: austeridade, nacionalismo e militarismo em meio ao aprofundamento da crise capitalista global

O Partido dos Trabalhadores (PT) e a coalizão de partidos pseudoesquerdistas e burgueses de sua “frente ampla” lançaram  em 16 de agosto a candidatura do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. O ato ocorreu no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no coração da região industrial do ABC paulista — “o local onde tudo começou”, nas palavras de Lula.

Lula no lançamento de sua candidatura à presidência em 16 de agosto no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. [Photo: Ricardo Stuckert]

A escolha não foi acidental. Foi na Vila Euclides que dezenas de milhares de metalúrgicos se reuniram em assembleias massivas durante as greves de 1978-1980 — lutas que abalaram a ditadura militar (1964-1985) e cuja combatividade foi desviada para a criação do PT em 1980 e da CUT em 1983. Na época, Lula era o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A encenação do retorno às origens é uma manobra cínica. Lula e o PT voltaram à Vila Euclides para simular uma relação com uma base operária que o partido há muito descartou. O estádio de quase 50 anos atrás foi mobilizado para encobrir os ataques desferidos contra os trabalhadores ao longo de 17 anos no poder desde 2002 — quando Lula foi eleito tendo como vice um magnata têxtil e acalmando o mercado financeiro com sua “Carta ao Povo Brasileiro”.

Mais uma vez, Lula e o PT estão construindo uma nova “frente ampla” para as eleições de outubro. No documento “Construindo o Futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país”, o PT alega querer “consolidar um amplo processo de concertação social” que reúna “o setor produtivo e o empresariado comprometidos com a nação, a classe trabalhadora, o sindicalismo e os movimentos populares em uma coalizão que transcenda a defesa institucional da democracia”.

A coligação eleitoral do PT é a maior desta eleição presidencial. Entre os sete partidos da chapa estão o pseudoesquerdista PSOL, o maoísta PCdoB e os partidos burgueses PDT e PSB. O vice-presidente e candidato à reeleição é Geraldo Alckmin (PSB) — ex-governador reacionário de São Paulo, responsável por décadas de ataques à educação e aos serviços sociais no estado mais rico do país, reciclado mais uma vez como “democrata” na chapa petista.

Mas o PT quer ampliar ainda mais suas alianças. Nas últimas semanas, o presidente do partido, Edinho Silva, realizou intensas negociações de bastidores para que partidos do chamado “centrão” — como o o Republicanos e o Progressistas, que fizeram parte do governo do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro (2019-2022) — se mantivessem neutros nesta eleição. Alegando que “há forças democráticas dentro de todos os partidos”, Silva agora pressiona para que essas legendas apoiem Lula já no primeiro turno.

Enquanto o governo mantém a austeridade e é incapaz de melhorar as condições de vida da população, as negociações de cúpula do PT reabilitam forças políticas odiadas, aumentando o descrédito de Lula e abrindo caminho para a extrema direita. Desde março, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro, aparece tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas de opinião.

O processo eleitoral ocorre em meio à crise cada vez mais aguda do capitalismo global. O imperialismo dos EUA busca reverter seu declínio econômico escalando conflitos que convergem rapidamente em uma terceira guerra mundial, tendo como alvos principais China e Rússia.

A América Latina tornou-se um campo de batalha nessa redivisão imperialista: Washington demonstrou, com a invasão da Venezuela em janeiro e as intervenções para promover candidatos fascistas alinhados a Trump em uma série de eleições regionais, que está disposto a usar força militar direta para reorganizar o continente e afastar a presença chinesa. O Brasil está na linha de fogo. As tarifas punitivas e as provocações diplomáticas dos EUA têm o objetivo declarado de enfraquecer Lula e impulsionar a candidatura de Flávio.

Diante desse quadro, a resposta do PT é fortalecer sua “unidade nacional” com setores da burguesia brasileira, avançando uma combinação de austeridade na economia, nacionalismo na política e militarismo na defesa do Estado burguês. É esse o conteúdo real por trás do saudosismo da Vila Euclides — e que o programa eleitoral registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 7 de agosto revela com clareza.

Elogio ao “novo arcabouço fiscal” e mais austeridade por vir

O título do programa — “Diretrizes para o programa de transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo” — já anuncia o tom que percorre suas 84 páginas: vago, autoelogioso e sistematicamente enganoso. O documento faz um balanço triunfalista do terceiro governo Lula (2023-2026), alegando que foi um período de “reconstrução” após a “destruição” causada pelo governo Bolsonaro (2019-2022). Um novo mandato completaria essa obra, transformando o Brasil com base na “soberania” e no “desenvolvimento nacional”.

O que o programa omite é o caráter real dessa “reconstrução”. O terceiro governo Lula não reconstruiu direitos; aprofundou a austeridade. Não reverteu o legado de Bolsonaro nem as reformas pró-mercado do governo de Michel Temer (2016-2018) — em aspectos decisivos, deu-lhes continuidade. E o resultado não foi a derrota do fascismo. Pelo contrário: as medidas de austeridade do governo Lula estão criando as condições para o ressurgimento da extrema direita.

É decisivo examinar em que termos o programa critica o governo Bolsonaro, pois é aí que se revela sua orientação de classe. O documento não condena Bolsonaro por ter aprofundado a exploração da classe trabalhadora, por ter armado a máquina repressiva contra os pobres ou por ter demolido os serviços sociais. O que lhe censura é outra coisa: o ex-presidente deixou “um legado de passivos expressivos, muito longe de uma herança de responsabilidade fiscal”. A acusação é que Bolsonaro governou mal para os capitalistas.

O programa prossegue com orgulho: “Fizemos a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil. Trabalhamos em conjunto com o Congresso Nacional para a aprovação do arcabouço fiscal”. O “novo arcabouço fiscal” — que permite ao gasto crescer até 2,5% acima da inflação — é o mecanismo que impõe limites ao orçamento público social para garantir o pagamento dos juros da dívida aos rentistas.

Para um quarto mandato, a promessa é de continuidade: assegurar “uma política fiscal responsável” e, “para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução significativa do déficit primário”. A afirmação de que o arcabouço controla gastos “sem prejudicar as políticas sociais' é uma mentira desmentida diariamente pelas inúmeras greves da educação e da saúde federais desde que Lula voltou ao poder em 2023.

Em 6 de agosto — um dia antes do registro do programa no TSE —, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, gabou-se à GloboNews: “Sei lidar com o fiscal de forma melhor, fizemos um ajuste de dois pontos [percentuais] do PIB”. E acrescentou que, neste ano eleitoral, “nós estamos fazendo um bloqueio no Orçamento de R$17 bilhões”.

Mas esse bloqueio é apenas uma fração da trava imposta pelo arcabouço. A Consultoria de Orçamento do Senado revelou recentemente uma restrição muito maior: ele já cortou R$105,5 bilhões do orçamento, com os maiores valores incidindo sobre saúde (R$15,1 bilhões) e educação (R$13,8 bilhões).

E este é apenas o começo. Em 12 de agosto, o governo aprovou no Congresso um projeto de lei que estende o arcabouço às vinculações obrigatórias, retirando entre R$8,6 bilhões e R$16,6 bilhões da saúde e da educação em 2027. Para um eventual quarto mandato, Durigan e a área econômica já sinalizaram uma nova rodada de ataques: redução do limite de crescimento real das despesas de 2,5% para 1,5% ao ano, revisão dos pisos constitucionais da saúde e da educação e reforma da previdência com aumento da idade mínima de aposentadoria. Segundo um dirigente do PT ouvido pela Folha de S. Paulo, “a visão de Durigan é também a do próprio Lula”.

Aumento da desigualdade e miséria social aos trabalhadores e jovens brasileiros

O programa afirma ainda que “o País voltou a crescer com redução das desigualdades, algo que só ocorreu nos nossos governos” e que “a política de valorização real do salário-mínimo e o mercado de trabalho aquecido levaram a uma expansão da massa salarial e do consumo. Alcançamos a maior renda real do trabalho e o menor desemprego da série histórica.” A realidade desmente cada uma dessas afirmações.

A desigualdade na distribuição de renda, medida pelo índice de Gini, aumentou no ano passado. Nas 22 regiões metropolitanas brasileiras, onde vivem 40% da população, o índice subiu 1,4% — de 0,533 em 2024 para 0,541 em 2025. O crescimento da renda que o governo celebra não beneficiou igualmente a todos: entre os 40% mais pobres, a renda média per capita subiu 4,2% no ano passado, para R$ 734 mensais, enquanto para os 10% mais ricos o crescimento foi de 9,1%, para R$ 11.837.

O crescimento do PIB de cerca de 3% entre 2023 e 2025, em parte impulsionado por uma recuperação natural após a fase mais aguda dos impactos econômicos da pandemia de COVID-19, está longe de restaurar as condições de vida aos níveis anteriores. A metade mais pobre da população viu seu consumo cair 20% entre 2014 e 2024. O problema não se restringe à base da pirâmide: os 40% do meio da distribuição perderam 7,7% de sua renda em relação a 2014; os 10% do topo, 3,2%. O país não está “crescendo com redução das desigualdades” — está se recuperando lentamente para uma minoria enquanto a maioria empobrece.

O que resta para consumo das famílias após o pagamento das contas básicas é hoje cerca de 20% da receita — em 2011, era 26%. A consequência direta é o endividamento recorde: em abril deste ano, 80,6% da população tinha alguma dívida, o maior patamar da série histórica. Não é com esse quadro que se anuncia “expansão do consumo”.

O “mercado de trabalho aquecido” que o programa celebra é, na realidade, um mercado estruturalmente precarizado. Cerca de 38 milhões de trabalhadores — 38% da força de trabalho — atuam na informalidade, sem qualquer proteção social. Entre os que têm carteira assinada no setor de serviços e comércio, prevalece a escala 6x1, com jornada de 44 horas semanais, alta rotatividade e mais de 65% desses trabalhadores recebendo até dois salários mínimos. Não por acaso, 71% dos profissionais relatam conviver com pressão diária e estresse constante.

Para a juventude trabalhadora, o cenário é ainda mais duro. A taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos ultrapassa 11% — mais que o dobro da média nacional —, enquanto a informalidade nessa faixa etária atinge mais de 45%. Frequentemente absorvidos no primeiro emprego por setores que exigem a escala 6x1 — fast-food, varejo, telemarketing — ou pela economia dos aplicativos, esses jovens submetem-se aos menores pisos salariais sem perspectiva de qualificação. Aproximadamente 8,2 milhões de pessoas de 15 a 29 anos — cerca de 20% dessa faixa etária — estão fora das salas de aula e do mercado formal, a chamada geração “nem-nem”.

Os dados revelam uma realidade dura também para os estudantes universitários: 68,4% deles possuem alguma dívida ativa, índice que dispara para 77,2% nas classes de menor renda. Grande parte deste cenário é o reflexo tardio de um modelo de expansão do ensino superior impulsionado a partir dos primeiros governos Lula (2003-2010). Ao focar-se na massificação do acesso através dos empréstimos do FIES, o sistema abriu as portas à mercantilização do setor, resultando numa proliferação desenfreada de faculdades privadas e cursos de Ensino a Distância (EaD), muitas vezes de baixa qualidade pedagógica.

Ao contrário do que o PT alega — a “educação básica como prioridade” —, a realidade é de precarização, mercantilização e abandono de toda uma geração. Não é à toa que mais de 70% dos jovens entre 16 e 24 anos, que nasceram e cresceram com os governos do PT no poder, desaprovam o governo Lula — o maior índice entre todas as faixas etárias.

De maneira geral, o programa do PT pinta um país que não existe. A realidade brasileira sob Lula não é de prosperidade compartilhada, mas de desigualdade crescente, consumo em queda, endividamento recorde e trabalho e educação precarizados para dezenas de milhões.

Soberania nacional, “neoindustrialização” e militarismo em meio ao aprofundamento da crise global

O programa do PT reconhece a gravidade da crise internacional, mas extrai dela conclusões que atendem aos interesses da burguesia brasileira, não da classe trabalhadora. As referências à situação mundial são constantes ao longo das 84 páginas: “O mundo contemporâneo vivencia o ressurgimento do unilateralismo, do protecionismo e de conflitos sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial”.

Para o PT, essa situação não é o resultado da crise irreversível do capitalismo global, mas de supostas escolhas erradas na forma de geri-lo. O alvo principal do partido é o “neoliberalismo” e a consequente subordinação dos países aos “interesses estrangeiros” das grandes potências e dos organismos internacionais. Com isso, o PT se apresenta como alternativa dentro do capitalismo — como se o problema não fosse o sistema, mas o modo de gestão.

A saída ao Brasil proposta pelo programa é “reafirmar sua soberania … sem qualquer tipo de subordinação estratégica”. Como parte da defesa de um mundo “multipolar”, o PT propõe “reformar e democratizar” o Conselho de Segurança da ONU, a Organização Mundial do Comércio, o FMI e o Banco Mundial, ao mesmo tempo que o Brasil aprofunda “a aproximação geopolítica com o BRICS e com o Sul Global, bem como com o G20”.

A defesa da “soberania nacional” é a linguagem do nacionalismo burguês. A questão que ela evoca, porém, é genuína: o imperialismo americano está de fato rasgando a legalidade internacional e violando a soberania de países independentes, do Irã à Venezuela, e o Brasil está na linha de fogo dessa ofensiva. Mas o PT e a burguesia brasileira são incapazes de responder a essa agressão, porque estão organicamente ligados ao imperialismo que a conduz.

A “soberania” que o PT defende não é a da nação — isto é, da população trabalhadora brasileira —, mas a dos capitalistas nacionais e de seus acordos com o imperialismo. É a burguesia brasileira tentando se equilibrar entre a China e os Estados Unidos, respectivamente o primeiro e o segundo parceiros comerciais do Brasil, para negociar melhores condições dentro do cenário de crescente crise global.

Isso pode ser visto na boa relação que Lula estabeleceu com o presidente americano Donald Trump — a quem Lula tem se referido como “amigo”. Desde que Trump voltou ao poder nos EUA, o PT e o governo Lula capitularam sucessivamente perante a ofensiva de Washington, seja minimizando os riscos dessa pressão externa e relativizando a ameaça autoritária de Trump, seja buscando acomodação com as demais potências imperialistas.

A construção de uma “ordem multipolar”, em que todos os países se beneficiariam se os organismos internacionais fossem reformados, é uma utopia reacionária. Esses organismos não são árbitros neutros passíveis de serem “democratizados” — são instrumentos forjados pelo imperialismo americano ao final da Segunda Guerra Mundial para impor sua hegemonia sobre o planeta. Ao propor sua reforma, o PT evoca o período do pós-guerra, quando a expansão capitalista sob hegemonia americana permitiu concessões sociais e políticas para o  “desenvolvimento nacional” — um período irrepetível.

Tampouco o BRICS é um bloco anti-imperialista: é uma aliança de Estados capitalistas — entre eles China e Rússia, que não são potências imperialistas, mas grandes Estados capitalistas que resistem à dominação americana — que buscam afirmar seus próprios interesses burgueses na rivalidade global. Longe de conter o militarismo americano, essa rivalidade empurra o planeta em direção à guerra.

O objetivo real dessa política externa fica claro quando se examina sua dimensão econômica. O programa do PT quer diversificar a cadeia produtiva brasileira, buscar novos mercados e reposicionar o país no comércio global. A comparação que vários membros do governo fazem com o período do final da Segunda Guerra Mundial é reveladora. Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), declarou no ano passado: “Para entrar na Segunda Guerra Mundial, nós negociamos a [siderúrgica] CSN e a mineração, e demos um salto industrializante”. Hoje, diz ele, “podemos atrair investimentos e lidar com inteligência nessa tensão” entre EUA e China.

Com base nessa orientação, o programa promete “aprimorar e fortalecer a neoindustrialização”, com “foco estratégico na inovação, IA, minerais críticos” — incluindo terras raras — e na “transição energética”.

A lista não é casual: cada um desses setores está no centro do conflito entre EUA e China. Minerais críticos e terras raras estão no centro da campanha americana para quebrar o domínio chinês sobre seu processamento — e o Brasil possui reservas significativas de ambos. A inteligência artificial é um campo de batalha central da guerra tecnológica entre EUA e China, enquanto a “transição energética” envolve lítio e hidrogênio verde, cujas cadeias de suprimento são disputadas ferozmente pelas grandes potências.

Em última análise, o que o PT apresenta como “neoindustrialização” para o “desenvolvimento nacional” é, na realidade, a integração do Brasil — seus recursos, seu território, sua força de trabalho — às cadeias produtivas que alimentam a guerra mundial em desenvolvimento. Isso fica particularmente claro quando se considera a importância que o governo Lula atribui à indústria de defesa como “vetor” da “neoindustrialização”. Nos últimos anos, as exportações da indústria de defesa brasileira saltaram de US$600 milhões em 2022 para US$3,4 bilhões em 2025 — e quatro dos cinco maiores compradores são membros da OTAN.

De fato, a indústria de defesa ocupa um lugar central no programa do PT, aparecendo pela primeira vez como prioridade programática. O documento afirma: “A defesa nacional exige Forças Armadas bem equipadas e uma indústria de defesa sólida, capazes de proteger o território brasileiro e seus recursos naturais diante de ameaças externas”. O partido que surgiu das greves operárias contra a ditadura militar agora inscreve as Forças Armadas como eixo de seu projeto nacional.

Romper com o PT e construir o Grupo Socialista pela Igualdade no Brasil

O programa do PT é a expressão acabada do que o partido se tornou. Não se trata de uma “traição” a origens que teriam sido autenticamente socialistas. O PT foi o instrumento construído pela burocracia sindical e por renegados do trotskismo para impedir que a combatividade das lutas do ABC se convertesse em independência política de classe. O que ele fez no final da ditadura militar — e que se repete hoje — foi canalizar a combatividade da classe trabalhadora brasileira para dentro dos canais seguros da política burguesa. O programa atual — austeridade, “frente ampla”, “soberania nacional” e militarismo — é o resultado lógico dessa trajetória.

Quase a totalidade das organizações da pseudoesquerda brasileira teve papel central nessa operação, incluindo o morenista Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), grupos morenistas e pablistas no PSOL e o lambertista Partido da Causa Operária (PCO). Todos elevaram Lula e a burocracia sindical à condição de direção política da classe trabalhadora — e, com sua retórica pseudorradical, forneceram a cobertura de “esquerda” que impediu a construção de uma alternativa revolucionária. Essa orientação foi formulada pelo patrono intelectual do PT, Mário Pedrosa — ex-dirigente da Oposição de Esquerda Internacional e depois desertor da Quarta Internacional —, que proclamou na conferência de fundação do partido que “um partido de massas não tem vanguarda, nem teorias, nem livro sagrado” — a negação direta de Lenin e Trotsky.

É sob essa perspectiva que deve ser entendido o retorno às origens encenado no Estádio da Vila Euclides. A trajetória de Lula condensa essa degeneração: de dirigente sindical que emergiu das greves do ABC contra a ditadura a presidente que, às margens da cúpula do G7 em junho passado, garantiu à diretora-gerente do FMI que “nunca fui esquerdista”. 

O PT nunca foi um partido operário que depois degenerou. Mas teve, em seus primeiros anos, uma base operária real, que sua direção se encarregou de liquidar.  À medida que o partido crescia eleitoralmente, se integrava ao Estado e aplicava a austeridade, essa base foi sendo ativamente descartada — um processo acelerado pela supressão das lutas da classe trabalhadora pelos sindicatos controlados pelo PT e pela pseudoesquerda ao seu redor. O que mudou desde 1980 não é o caráter de classe do partido, mas a franqueza com que ele o exibe: a retórica do “socialismo democrático” e da “independência política” — coberturas ideológicas para sua fundação em 1980, que encontrava eco entre os trabalhadores na época — desapareceu, a base operária desmoronou e o partido burguês que sempre foi agora se apresenta sem qualquer disfarce.

A classe trabalhadora e os jovens brasileiros não podem reformar o PT, nem “empurrá-lo para a esquerda”, nem usá-lo como “mal menor” contra os Bolsonaros e a extrema direita. É preciso romper com o PT, com a pseudoesquerda ao seu redor com os sindicatos que o sustentam. A luta contra a austeridade, o militarismo e a guerra exige independência política de classe.

O Grupo Socialista pela Igualdade (GSI), em solidariedade com o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), está lutando para construir a seção brasileira do movimento trotskista mundial e um partido revolucionário da classe trabalhadora, armado com um programa socialista e internacionalista. Contra a “frente ampla” do PT com a burguesia, a frente única dos explorados de todos os países. Contra a austeridade que sangra os serviços sociais, a expropriação dos grandes bancos e monopólios e a reorganização socialista da economia sob controle democrático dos trabalhadores.

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