Publicado originalmente em inglês em 2 de setembro de 2026
A quinta reunião regional do Foro de Madri, que acontece em Santiago nos dias 3 e 4 de setembro, é a organização internacional da contrarrevolução social, coordenada para além das fronteiras nacionais e a serviço dos setores mais reacionários da burguesia. A escolha do Chile como país-sede é, nas próprias palavras do Foro, uma declaração de que “a reconquista é possível”. José Antonio Kast – um dos signatários originais da Carta de Madri e agora presidente do Chile – fará um dos principais discursos, e o presidente argentino Javier Milei deverá falar em seguida.
A data foi escolhida porque marca o quarto aniversário da vitória do “Rechazo” no Chile, quando uma esmagadora maioria dos eleitores rejeitou um novo projeto de Constituição que pretendia substituir a carta constitucional autoritária do país. É também uma homenagem ao golpe de Estado de setembro de 1973, apoiado pelos Estados Unidos, que instaurou a ditadura de 17 anos do general Augusto Pinochet, um dos heróis da direita fascista internacional.
A lista de participantes confirmados revela o verdadeiro propósito do evento. Ao lado de alguns dos políticos latino-americanos mais reacionários – Kast; Milei; o presidente do Congresso de Honduras, Tomás Zambrano; a deputada peruana Norma Yarrow; a deputada equatoriana Diana Jácome; o senador colombiano Enrique Gómez Martínez; e o venezuelano Alejandro Peña Esclusa – também figura o aparato “intelectual” do imperialismo americano em sua forma mais agressiva na atualidade. Eles receberam posição de destaque nas sessões do evento.
Kevin Roberts, da Heritage Foundation, fará um discurso especial. Fundada em 1973, a Heritage Foundation é o principal instituto de formulação de políticas da direita americana desde a presidência de Ronald Reagan, na década de 1980. Em seguida, haverá um painel intitulado “O novo papel dos Estados Unidos na Ibero-América”, com a participação de Eric Farnsworth, da Continental Strategy; Brandon Judd, embaixador dos EUA no Chile; Mike González, da Heritage Foundation; e Alejandro Peña Esclusa, da Dissent Foundation.
O evento será encerrado com o painel final, intitulado “A defesa do Ocidente: uma aliança civilizacional”, com a participação de Kinga Gál, eurodeputada e vice-presidente do Patriotas (Hungria); Hermann Tertsch, eurodeputado e vice-presidente do grupo Patriotas pela Europa; e Andrés Martínez, analista sênior para a América Latina da Heritage Foundation.
O painel de segurança, intitulado “Segurança hemisférica: enfrentando o crime transnacional e o terrorismo”, contará com a participação de Joshua Treviño, que foi redator de discursos do governo de George W. Bush e, depois, chefe de inteligência e pesquisa da Texas Public Policy Foundation. Entre os demais participantes estão John P. Walters, presidente do Hudson Institute, que atuou como diretor do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas da Casa Branca durante todo o governo Bush, e Sarah Rogers, subsecretária de Estado dos EUA para diplomacia pública, ligada à direita.
É a mesma constelação de atores que se reuniu na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), o principal evento anual da direita americana, quando o evento foi realizado em Buenos Aires, em dezembro de 2024. Na ocasião, Lara Trump, nora do então presidente eleito, saudou Milei como modelo para o novo governo, afirmando: “vamos fazer a mesma coisa nos Estados Unidos”; Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, declarou que a Argentina era “a ponta da lança” do “Ocidente judaico-cristão”. Milei afirmou que a função desses eventos era “estabelecer canais de cooperação pelo mundo – poderíamos nos chamar de uma Internacional de Direita”.
Esses think tanks representam os interesses mais vorazes do capital americano, que buscam promover a recolonização da região. Como documentou o World Socialist Web Site quando o Foro foi lançado, em 2020, a Carta de Madri foi redigida depois que Santiago Abascal, presidente do partido espanhol de extrema direita Vox, percorreu os Estados Unidos para se reunir com a Heritage Foundation, o International Republican Institute e a American Conservative Union, e foi elaborada em coordenação direta com Trump, então à frente do Partido Republicano.
Os eventos anuais do Foro de Madri têm sido organizados em torno de temas como “democracia”, “liberdade” e “Estado de direito” — ideais grandiloquentes que o centro da reação em Washington, sob Trump, trabalha para esvaziar. O bloco latino-americano nunca esteve realmente comprometido com esses princípios; tem um histórico de apoio às ditaduras militares que governaram a região por mais de três décadas. Todos buscam ativamente perdoar os açougueiros responsáveis por crimes hediondos contra a humanidade e todos incorporaram a seus gabinetes militares da ativa e da reserva.
A direita latino-americana é coautora das campanhas de desestabilização dos Estados Unidos contra Cuba e Venezuela – cúmplice dos regimes de sanções que devastaram ambas as economias, alimentaram a emigração em massa e provocaram escassez documentada de alimentos e medicamentos, com impactos mais graves sobre os setores mais pobres da população, independentemente do número de mortos que isso acarrete.
Um indício de suas credenciais “democráticas” é o caso recente do argentino Fernando Cerimedo, um “assessor” nos bastidores da direita latino-americana. Cerimedo trabalhava para o presidente boliviano de direita Rodrigo Paz quando foi preso, pouco mais de duas semanas atrás, por tentativa de homicídio da advogada e ativista boliviana Nadia Beller. Após operações de busca em diversas propriedades ligadas a ele em La Paz, promotores bolivianos acusaram Cerimedo de enriquecimento ilícito e de proteção ao narcotráfico.
Descobriu-se que Cerimedo tem estreitos vínculos com o governo Trump por meio de seu ex-gerente de campanha, Brad Parscale. As investigações criminais abriram uma verdadeira caixa de Pandora de interferência eleitoral orquestrada pela direita fascista em seis países: Bolívia, Brasil, Argentina, Chile, Honduras e México. O Foro de Madri, cujo operador argentino é acusado de orquestrar uma campanha de desinformação contra um governo em exercício, costuma rotular seus adversários políticos como “criminosos”, “narcoterroristas” e ameaças à ordem democrática.
Como compreender o movimento fascista emergente: a burguesia como sujeito político que aprende com a história
Uma Internacional fascista é uma contradição em termos: a substância ideológica do fascismo é irredutivelmente nacionalista. A nação é o objeto supremo de lealdade e sacrifício. Ainda assim, a direita fascista sente a necessidade de formular uma teoria internacional unificadora e construir uma organização internacional. Ela depende do apoio financeiro e político do imperialismo. E precisa de uma mitologia unificadora que transcenda cada nação em particular. Daí a “Iberosfera” invocada por Abascal, ou “o Ocidente” e a “civilização judaico-cristã” invocados por Bannon e Milei.
Isso porque seu verdadeiro inimigo é a classe trabalhadora, uma força social genuinamente internacional.
Os setores politicamente mais conscientes da burguesia internacional estudaram os anos de 1919 a 1933 e extraíram a lição de que esperar até que a crise se agrave é estrategicamente catastrófico. A burguesia alemã improvisou sob pressão e quase perdeu tudo. A lição tirada dessa experiência é agir antes que a classe trabalhadora alcance o limiar da ação política independente. O termo-chave é “preventivo”.
O fato de Trump ser conhecido por manter na cabeceira um livro com os discursos de Hitler não é mera curiosidade biográfica; é uma expressão das ferramentas ideológicas com as quais pensa a fração mais agressiva da classe dominante americana. Tampouco a lógica preventiva está restrita à frente doméstica. Nos julgamentos de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial, nos quais a liderança nazista sobrevivente foi julgada pelas potências aliadas vitoriosas, a principal acusação foi a de “crime contra a paz” – o planejamento, a preparação, o início e a condução de uma guerra de agressão.
O principal promotor americano, Robert Jackson, chamou-o de “o crime internacional supremo”. No fim, o imperialismo americano adotou esse mesmo crime como doutrina. A invasão do Iraque em 2003, lançada com base em pretextos fabricados sob a “Doutrina Bush” de guerra preventiva proclamada pelo presidente George W. Bush, incorporou formalmente a agressão preventiva à política externa da mais poderosa potência imperialista. Três décadas depois, o imperialismo mundial financia e arma um genocídio. A mesma classe que transformou a guerra preventiva em sua doutrina estratégica agora aplica a mesma lógica a seus inimigos de classe internos: atacar antes que o inimigo esteja organizado.
É disso que se trata o Foro de Madri e o circuito internacional da CPAC. Ainda não existe um movimento fascista de massas assentado sobre as classes médias arruinadas e enfurecidas. Na América Latina, essa ausência é parcialmente compensada pelas redes paramilitares construídas ao longo de décadas de cooperação contrainsurgente; pelo treinamento, durante meio século, de oficiais latino-americanos na Escola das Américas do Exército dos EUA (hoje Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança); e pelos acordos de compartilhamento de inteligência e pelas redes que articulam oficiais de inteligência, militares e policiais em todo o continente. Os oficiais e integrantes do alto comando formados, desde os anos 1980 até hoje, sob doutrinas de segurança nacional visceralmente anticomunistas somam centenas de milhares.
Mas tampouco existem ainda conselhos de trabalhadores, um partido revolucionário de massas ou uma ofensiva organizada da classe trabalhadora. A classe trabalhadora não dispõe de um partido próprio e enfrenta uma crise prolongada de direção revolucionária. E, no entanto, o setor mais agressivo da burguesia está agindo agora porque é capaz de ler os indicadores que ela própria produziu: a desigualdade social extrema, o colapso das condições de vida de uma parcela imensa da população e um mal-estar socioeconômico generalizado que só se aprofunda. Em meio à ilegitimidade generalizada das instituições burguesas, a própria burguesia está novamente rompendo com as formas democráticas de governo e agindo com base nessas projeções, em vez de esperar pela concretização da revolução socialista.
O que mudou desde 1933: o colapso das antigas organizações
A chegada do fascismo ao poder na Alemanha, em 1933, que assinalou a derrota do setor mais poderoso da classe trabalhadora europeia, foi, em última análise, uma vitória sobre a classe trabalhadora não apenas dos nazistas, mas também dos traidores da classe trabalhadora alemã. A Alemanha possuía então o maior e mais bem organizado movimento operário do mundo. O Partido Social-Democrata (SPD) e o Partido Comunista (KPD), juntos, contavam com a lealdade de milhões de trabalhadores organizados, com seus próprios partidos, sindicatos, jornais e instituições culturais. Esse peso organizativo foi convertido em um mecanismo de repressão da própria classe trabalhadora.
O SPD, como demonstrou o revolucionário russo Leon Trotsky em seus escritos de 1931–32, era um partido de massas que, ainda assim, sustentava que a questão de qual classe governaria a Alemanha dependia “não da força de combate do proletariado alemão, não das tropas de choque do fascismo, nem mesmo dos efetivos da Reichswehr, mas de saber se o puro espírito da Constituição de Weimar... seria instalado no palácio presidencial”.
O SPD apoiou o governo de Brüning, baseado em decretos de emergência, como um “mal menor”; fez campanha pela reeleição de Hindenburg à presidência em 1932, seguindo a mesma lógica do “mal menor”; e permaneceu passivo mesmo quando Hindenburg e von Papen depuseram, pela força militar, em julho de 1932, o governo da Prússia – o maior estado da Alemanha – liderado pelo SPD. A resposta do SPD a esse golpe foi apresentar uma ação de inconstitucionalidade ao Supremo Tribunal, em vez de mobilizar seus milhões de membros. Como observou Trotsky, os reformistas “que sobreviveram à sua própria época, trabalham para os fascistas pelos canais burocráticas”.
O Partido Comunista Alemão (KPD), por sua vez, estava subordinado à burocracia stalinista de Moscou. Seguindo a chamada linha do “Terceiro Período”, imposta pela Internacional Comunista (Comintern), o KPD declarou que os social-democratas, e não os nazistas, eram o principal inimigo, classificando-os como “social-fascistas” e recusando-se a formar uma frente única entre os dois partidos operários – a única força que poderia ter detido Hitler. Em 1933, a Comintern havia se tornado um instrumento da política externa do Kremlin, e o desastre alemão confirmou sua transformação em uma agência contrarrevolucionária. O poder foi entregue a Hitler em 30 de janeiro de 1933 sem que um único tiro fosse disparado em uma resistência organizada, porque as organizações que poderiam ter resistido já haviam sido convertidas em instrumentos de desmobilização da classe trabalhadora.
A destruição da alternativa revolucionária não foi deixada ao acaso. O extermínio físico dos bolchevique-leninistas, sobretudo na Rússia, durante os Processos de Moscou, foi a condição para o desarmamento político da classe trabalhadora internacional.
Essas experiências trágicas se repetiram no Chile entre 1970 e 1973, onde os partidos Comunista e Socialista subordinaram a classe trabalhadora ao programa de conciliação de classes do governo da Unidade Popular, desarmando-a politicamente justamente no momento em que a burguesia e os militares preparavam o golpe. O capitalismo sobreviveu ao século XX graças às traições criminosas da Segunda Internacional e da Internacional Comunista.
Essas tendências políticas são hoje apenas sombras do que foram um dia. Os governos burgueses e pequeno-burgueses nacionalistas, reformistas e pseudoesquerdistas da América Latina, conhecidos coletivamente como Maré Rosa, são meras máquinas eleitorais, sem filiação em massa nem base social na classe trabalhadora. Valendo-se de sua retórica anti-imperialista, inclusive das alegações de alguns de que estariam implementando um “socialismo do século XXI”, a pseudoesquerda latino-americana e internacional, o revisionismo pablista e sua variante latino-americana, o morenismo, promoveram esses governos como um novo caminho para o socialismo.
A primeira onda – Hugo Chávez na Venezuela, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Néstor Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador – implementou algumas reformas sociais, financiadas pelo boom das commodities impulsionado pela demanda chinesa, que começou nos anos 1990 e entrou em colapso por volta de 2014.
A segunda onda – Maduro na Venezuela, Andrés Manuel López Obrador no México (2018), Gabriel Boric no Chile (2021), Gustavo Petro na Colômbia (2021), Lula novamente (2022) –, atolada em condições econômicas estagnadas, abandonou até mesmo a pretensão reformista e, um após o outro, esses governos aprofundaram as relações de propriedade capitalistas, enriqueceram a oligarquia, consolidaram a pobreza, adotaram as pautas de “lei e ordem” da direita e os clichês xenófobos contra imigrantes e se alinharam à postura hemisférica agressiva do governo Biden, abrindo caminho para Trump.
Foi essa traição às imensas expectativas da classe trabalhadora e das massas oprimidas que facilitou a vitória da direita fascistoide, apesar da interferência eleitoral orquestrada por Cerimedo e seus aliados. As explosões espontâneas de massas em toda a região – parte de um ressurgimento internacional da luta de classes iniciado na década de 2010 – produziram uma situação explosiva e menos previsível devido à ausência dos amortecedores burocráticos que anteriormente dominavam a classe trabalhadora. Mas o movimento social, apoiado predominantemente em estudantes e jovens, carecia da perspectiva e direção políticas necessárias para transformar essa força em poder político, o que teria exigido uma orientação explícita para a classe trabalhadora e uma ruptura com o radicalismo anarquista de classe média que definia os limites extremos da política desses movimentos.
Foi precisamente nessa brecha que a Maré Rosa se inseriu para conter o movimento de massas a partir de baixo, canalizando a raiva acumulada nas ruas para os processos eleitorais e as assembleias constituintes. Depois de dissipar a energia revolucionária em formas parlamentares, os governos da Maré Rosa reprimiram todas as manifestações de luta.
A crise da direção revolucionária
A crise histórica da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária. As derrotas do século XX não foram infligidas pela força superior da burguesia, mas pelas traições da social-democracia, do stalinismo e de todas as formas de reformismo, que canalizaram a luta da classe trabalhadora de volta ao serviço do capital. Mas essas mesmas forças não podem repetir suas traições. Elas já não exercem sobre a classe trabalhadora o controle organizacional e político que antes exerciam. As condições que sustentavam esse controle foram destruídas pela própria globalização do capital à qual essas forças se adaptaram.
É nesse contexto que o Comitê Internacional da Quarta Internacional representa algo historicamente decisivo: a continuidade do marxismo revolucionário genuíno ao longo das décadas de derrota, traição e assassinato. Essa continuidade não é meramente organizacional; é também teórica e programática, incorporando as lições de um século de luta de classes que a classe trabalhadora não precisa reaprender do zero.
A situação é perigosa, e o prazo é curto. A direita fascista está organizada, conectada internacionalmente e integrada ao Estado de maneiras que não se viam desde a década de 1930. Mas as condições objetivas para a revolução socialista – a globalização da produção, a socialização do trabalho, a falência manifesta de todas as alternativas capitalistas – jamais estiveram tão maduras. Diante da ameaça fascista, da austeridade e dos primeiros tiros da Terceira Guerra Mundial, existe uma alternativa socialista. A tarefa é construí-la.
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