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Perspectivas

A vitória eleitoral da AfD na Alemanha: quem são os responsáveis?

Publicado originalmente em inglês 8 de setembro de 2026

A vitória eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD) no estado alemão da Saxônia-Anhalt é uma condenação contundente de toda a estrutura da política capitalista, e não apenas na Alemanha. No país que foi o epicentro da catástrofe fascista do século passado, um partido que é descendente ideológico e político do partido de Hitler emergiu como uma força dominante na política alemã.

Os co-líderes da AfD, Alice Weidel, ao centro, e Tino Chrupalla, à direita, e o principal candidato nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, à esquerda, saindo de uma coletiva de imprensa em Berlim, na Alemanha, em 7 de setembro de 2026. [AP Photo/Ebrahim Noroozi]

Em 1965, quando um pequeno partido neonazista obteve 2% dos votos nas eleições federais alemãs, o resultado causou choque e recriminações. Agora, a enorme votação a favor da AfD foi recebida com uma reação moderada. Na esteira da vitória de Meloni na Itália, da ascensão de Le Pen na França e da força crescente de Farage no Reino Unido, o fascismo passou a ser aceito como parte legítima do cenário político.

A AfD aumentou sua votação de 20,8% em 2021 para 43,8%, tornando-se, de longe, o partido mais forte. Conquistou 38 dos 41 mandatos diretos e agora detém 39 das 83 cadeiras no novo parlamento estadual — faltando apenas três cadeiras para a maioria absoluta. Os Democratas Cristãos (CDU), partido atualmente no poder em nível federal, que governa a Saxônia-Anhalt desde 2011 e que, ainda em 2021, havia alcançado 37,1%, despencaram para 17,2%.

Os outros partidos tradicionais também sofreram uma derrota esmagadora. Os Social-Democratas (SPD), que governam em coalizão com a CDU/União Social-Cristã no âmbito federal, obtiveram 9,3%; os Verdes, 8,9%; e o partido A Esquerda, 8,6%. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que disputou uma eleição estadual pela primeira vez, garantiu por uma pequena margem uma cadeira no parlamento estadual com 5,3%. A CDU, o SPD e os Verdes, que anteriormente governavam juntos, agora somam, juntos, apenas 35,4% — mais de oito pontos percentuais a menos do que a AfD sozinha.

Embora a AfD não seja um partido fascista de massas, sua ideologia etnonacionalista, sua visão de mundo racista e seu programa político estão intimamente ligados à tradição nazista. Ao mesmo tempo, sua ascensão não pode ser entendida como um fenômeno puramente alemão ou como uma peculiaridade de um pequeno estado federal da Alemanha Oriental com 1,7 milhão de eleitores registrados. O sucesso eleitoral da AfD faz parte de uma guinada internacional à direita entre as elites dominantes.

O mundo encontra-se em um momento de virada histórica. Em nenhum outro lugar do mundo o fascismo demonstrou tão abertamente os crimes abomináveis de que é capaz como na Alemanha. O assassinato sistemático de 6 milhões de judeus, a guerra de aniquilação contra a União Soviética com pelo menos 27 milhões de mortos, a repressão do movimento operário e o estabelecimento de um regime de terror pelos nazistas ainda são considerados hoje como o símbolo máximo dos crimes contra a humanidade.

A intensificação da guerra, a crise econômica e a polarização social já não permitem mais o compromisso social nem a democracia. É por isso que a classe dominante em todos os principais países capitalistas está recorrendo a métodos fascistas de governo. A presidência de Donald Trump nos EUA, a liderança de Marine Le Pen nas eleições presidenciais francesas, o governo de Giorgia Meloni na Itália e a crescente influência do Vox na Espanha são, todos, manifestações da mesma tendência.

Ninguém deve se deixar enganar pelo discurso de uma “barreira de proteção” contra a AfD. Os partidos tradicionais abriram caminho para a AfD e irão cooperar com ela. Foram eles que prepararam o terreno político e ideológico no qual a AfD prospera.

Historiadores como Jörg Baberowski vêm, há anos, reescrevendo a história da Segunda Guerra Mundial e banalizando os crimes dos nazistas. Na Ucrânia, o governo alemão está financiando um regime que venera como heróis colaboradores nazistas cujas mãos estão manchadas com o sangue de dezenas de milhares de judeus, comunistas e poloneses. Em Gaza, ele está apoiando um genocídio. A UE transformou a Europa em uma fortaleza em cujas muralhas milhares de refugiados morrem todos os anos, colocando assim em prática as políticas da AfD.

Os sindicatos, o SPD e o partido A Esquerda são os principais responsáveis pela ascensão da AfD. Eles impedem sistematicamente que a resistência à guerra e à desigualdade social encontre expressão na esquerda. Apoiam demissões, cortes nos serviços sociais e uma política de guerra, sufocando qualquer resistência a essas medidas. Dessa forma, permitem que a AfD se apresente como uma oponente do establishment político e como um partido antiguerra.

Apenas três dias antes das eleições na Saxônia-Anhalt, o IG Metall demonstrou mais uma vez que os sindicatos servem aos interesses das empresas, e não aos dos trabalhadores. Ele concordou, pelas costas dos trabalhadores, com a perda de 75 mil empregos na Volkswagen.

O SPD há muito rompeu todos os laços com suas raízes no movimento operário e, no governo Merz, é responsável pelo rearmamento e pelos cortes nos serviços sociais por meio de seu controle dos ministérios da Defesa, das Finanças e do Trabalho.

O partido A Esquerda e seu antecessor, o Partido do Socialismo Democrático, desempenharam um papel fundamental na destruição de empregos e serviços públicos nos últimos 35 anos na Alemanha Oriental, onde, em certos momentos, foram o partido mais forte.

A AfD aproveitou essa situação a seu favor. As pesquisas de boca de urna refutam a ideia de que 44% da população da Saxônia-Anhalt tenha se transformado repentinamente em extremistas de direita convictos. Além das tradicionais questões da direita, como segurança interna e imigração, o bem-estar social, a economia e a paz tiveram um papel decisivo na decisão de votar na AfD. De acordo com pesquisas da Infratest dimap, 20% dos eleitores da AfD têm visões de extrema direita e outros 18% têm uma visão de mundo claramente de direita. Para 62%, no entanto, esse não é o caso. Muitos votaram no partido em protesto contra as políticas de guerra e austeridade do governo federal.

Na realidade, é claro, a AfD não é nem contra a guerra nem contra os cortes nos gastos sociais. Foi o primeiro partido a defender um aumento nos gastos com defesa para 5% do PIB e exige o cumprimento rigoroso do freio à dívida. A propriedade privada capitalista e o lucro são sagrados para ela. Ela representa os interesses do capital na forma mais agressiva. Os parabéns de Donald Trump e Elon Musk pela vitória eleitoral na Saxônia-Anhalt dizem mais do que qualquer slogan eleitoral. O nacionalismo econômico da AfD serve para impor os interesses dos oligarcas e dos monopólios — como no tempo de Hitler — por meio da guerra.

Sob a pressão das tarifas americanas, da concorrência chinesa, do aumento dos gastos com defesa e dos déficits orçamentários que disparam, a crise do capitalismo europeu se intensifica a cada dia. O desmantelamento total dos sistemas de previdência, saúde e educação — pelos quais os trabalhadores lutaram nas grandes lutas de classe das décadas do pós-guerra — está se tornando inevitável para os capitalistas, se quiserem defender sua riqueza e seus lucros.

O mesmo se aplica à escalada da guerra na Ucrânia. O imperialismo alemão, em particular, considera uma derrota russa crucial para satisfazer sua sede por matérias-primas e expansão e está disposto a arriscar uma guerra nuclear nesse processo.

Para levar adiante essa agenda, a classe dominante está cortejando os fascistas. A classe trabalhadora deve dar sua própria resposta e construir uma direção política independente. O Sozialistische Gleichheitspartei (SGP — Partido Socialista pela Igualdade) escreveu em sua declaração antes da eleição:

Essa guinada para a direita não pode ser contida por manobras parlamentares envolvendo os partidos governistas. O que é necessário é uma ofensiva independente da classe trabalhadora, dirigida contra a guerra, os cortes nos gastos sociais e sua causa fundamental: o capitalismo. Tal ofensiva privaria a AfD da base social sobre a qual ela atualmente espalha sua demagogia e revelaria as divisões de classe: a AfD não representa os interesses das pessoas comuns, mas está do lado do capital, do militarismo e do Estado autoritário.

As condições objetivas para tal ofensiva estão se desenvolvendo rapidamente. A resistência às políticas de guerra e austeridade do governo alemão está crescendo. O que falta é uma perspectiva socialista independente e uma direção. A luta contra a AfD exige uma ruptura política com o partido A Esquerda e os sindicatos, que se esforçam para acorrentar a classe trabalhadora ao cadáver podre do capitalismo moribundo.

O Sozialistische Gleichheitspartei está concorrendo às eleições para a Câmara dos Deputados de Berlim, em 20 de setembro, com o objetivo de construir esse movimento. Ele não faz apelos vazios aos belicistas, mas organiza a resistência contra demissões, cortes salariais e cortes nos gastos sociais e, juntamente com seus partidos irmãos do Comitê Internacional da Quarta Internacional, está construindo um movimento mundial contra a guerra e o capitalismo.

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